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Monte Sinai

O Príncipe que Há de Vir!

By Sir Robert Anderson

http://www.cuttingedge.org

 

CAPÍTULO 2

DANIEL E SEU TEMPO

"O profeta Daniel". Ninguém pode ter um título maior junto ao seu nome, pois foi assim que o Messias se referiu a ele. Todavia, o grande Príncipe do Cativeiro certamente não o teria usado. Isaías, Jeremias, Ezequiel e os demais, "falaram inspirados pelo Espírito Santo" [2 Pedro 1:21] mas Daniel não proferiu essas palavras "que saíram da boca de Deus". [1] Como o "discípulo amado" nos tempos messiânicos, ele teve visões e registrou o que viu. A grande predição das setenta semanas foi uma mensagem entregue a ele por um anjo, que falou com ele como um homem fala com outro homem. Um estranho à dieta de um profeta [2] e às vestimentas de um profeta, ele viveu no meio de todo o luxo e pompa de um palácio oriental. Próximo ao rei, ele era o homem mais importante no maior império da antigüidade; e não foi até o fim de uma longa vida como estadista que ele recebeu as visões registradas nos capítulos finais de seu livro.

Para compreender essas profecias corretamente, é essencial que os principais eventos da história política dos tempos sejam mantidos à vista.

O verão da glória nacional de Israel foi tão curto quanto brilhante. O povo nunca aquiesceu no coração com o decreto divino que, ao distribuir as dignidades tribais, confiou o cetro à casa de Judá, ao mesmo tempo em que determinou o direito de primogenitura para a família favorita de José; [3] e seus mútuos ciúmes e feudos, embora mantidos em xeque pela influência pessoal de Davi, e o esplendor muito maior do reinado de Salomão, produziram uma divisão nacional com a ascensão de Reoboão. Ao se revoltar contra Judá, os israelitas também apostataram de Deus e, esquecendo-se da adoração a Jeová, caíram em flagrante e aberta idolatria. Após dois séculos e meio sem uma única passagem brilhante em sua história, eles foram levados em cativeiro para a Assíria; [4] e quando Daniel nasceu, um século já tinha transcorrido desde a data de sua extinção nacional.

Judá ainda reteve uma independência nominal, embora, na verdade, a nação já tivesse caído em um estado de profunda vassalagem. A posição geográfica de seu território a marcava para esse destino. Vivendo na metade do caminho entre o Nilo e o Eufrates, a suserania na Judéia tornou-se inevitavelmente um teste pelo qual seus antigos inimigos além da fronteira do sul, e o império que o gênio de Nabopolassar estava então formando no norte, testariam as reivindicações de supremacia. O profeta nasceu exatamente no mesmo ano que é reconhecido como a época do Segundo Império Babilônio. [5] Ele ainda era um menino quando ocorreu a fracassada invasão do faraó Neco à Caldéia. Naquela luta, seus parentes e o soberano, o bom rei Josias, apoiaram a Babilônia; Josias não somente perdeu a vida, mas comprometeu ainda mais o destino de sua casa real e a liberdade de seu país. [2 Reis 23:29; 2 Crônicas 35:20]

Mal terminou a lamentação pública por Josias, quando o faraó, em sua marcha de volta ao Egito, apareceu diante de Jerusalém para confirmar a suserania, impor uma pesada tributação sobre a terra e definir a sucessão do trono. Jeoacaz, um jovem filho de Josias, tinha sido coroado após a morte de seu pai, mas foi deposto pelo faraó em favor de Eliaquim, que sem dúvida alguma se recomendou ao soberano do Egito pelas mesmas qualidades que talvez tinham induzido seu pai a preteri-lo. Faraó alterou o nome dele para Jeoiaquim e o estabeleceu no reino como um vassalo do Egito. [2 Reis 23:33-35; 2 Crônicas 36:3,4]

No terceiro ano após esses eventos, Nabucodonosor, príncipe real de Babilônia, [6] partiu em uma expedição de conquista, chefiando os exércitos de seu pai e, ao entrar na Judéia, exigiu a submissão do rei de Judá. Após um cerco sobre o qual a história não dá muitos detalhes, ele capturou a cidade e tomou o rei como prisioneiro de guerra. Entretanto, Jeoiaquim reconquistou sua liberdade e seu trono prometendo aliança a Babilônia; de modo que Nabucodonosor se retirou sem tomar despojos, exceto uma parte dos vasos sagrados do templo, que transportou para a casa de seu deus, e sem cativos, exceto alguns poucos jovens da semente real de Judá, Daniel entre eles, a quem Nabucodonosor selecionou para adornar sua corte como príncipes vassalos. [2 Reis 24:1; 2 Crônicas 36:6,7; Daniel 1:1-2] Três anos mais tarde, Jeoiaquim se rebelou; mas, embora durante o restante de seu reinado seu território tenha sido freqüentemente invadido por tropas de caldeus, cinco anos se passaram antes que os exércitos de Babilônia retornassem para impor a conquista da Judéia. [7]

Joaquim, um jovem de dezoito anos, que tinha acabado de suceder ao trono, rendeu-se imediatamente com sua família, criados e oficiais [2 Reis 24:12] e uma vez mais Jerusalém ficou à mercê de Nabucodonosor. Em sua primeira invasão ele tinha se mostrado magnânimo e leniente, mas agora tinha de não apenas afirmar a supremacia, mas punir a rebelião. Destarte, ele saqueou a cidade de tudo o que tinha valor e transportou os tesouros para Babilônia, não deixando nada para trás, "senão o povo pobre da terra." [2 Reis 24:14]

O tio de Joaquim, Zedequias, foi deixado como rei ou governador da cidade despojada e despovoada, tendo jurado por Jeová aliança ao suserano. Esse foi o "cativeiro do rei Jeoiaquim", de acordo com a era do profeta Ezequiel, que estava ele mesmo entre os cativos [Ezequiel 1:2]

A servidão a Babilônia tinha sido predita já nos dias de Ezequias [2 Reis 20:17] e após o cumprimento da profecia de Isaías a seu respeito, Jeremias foi encarregado com uma mensagem divina de esperança aos cativos, que após setenta anos serem cumpridos, eles seriam restaurados à sua terra. [Jeremias 29:10] Mas enquanto o exilados estavam assim confortados com as promessas de bem, o rei Zedequias e o "restante de Jerusalém que ficou na terra" foram advertidos que a resistência ao decreto divino que os sujeitava ao jugo de Babilônia traria sobre eles julgamentos muito mais terríveis que qualquer um deles tinha conhecido. Nabucodonosor retornaria para destrui-los totalmente e fazer de toda a terra "um deserto e um espanto" [Jeremias 24:8-10; 25:9; 27:3-8] No entanto, falsos profetas se levantaram para alimentar a vaidade nacional predizendo a rápida restauração da sua independência [Jeremias 28:1-4] e, a despeito das solenes e repetidas advertências de Jeremias, o fraco e ímpio rei foi enganado pelo testemunho desses falsos profetas e, tendo obtido a promessa de apoio militar do Egito, [Ezequiel 17:15], ele abertamente se rebelou.

Conseqüentemente, os exércitos dos caldeus mais uma vez cercaram Jerusalém. Os eventos parecem a princípio justificar a conduta de Zedequias, pois as forças egípcias vieram apressadamente em seu auxílio, de modo que os babilônios foram compelidos a levantar o cerco e se retirar da Judéia. [Jeremias 37:1,5,11] Entretanto, esse sucesso temporário dos judeus serviu apenas para exasperar o rei de Babilônia e para tornar o destino deles mais terrível do que a última vez que ele tinha tomado a cidade. Nabucodonosor determinou infligir um castigo exemplar à cidade rebelde e a seus habitantes e, colocando-se como chefe de todas as forças de seu império, [2 Reis 25:1; Jeremias 34:1] ele mais uma vez invadiu a Judéia e cercou a cidade santa.

Os judeus resistiram com o fanatismo cego que a falsa esperança inspira; este é um sinal de prova da força natural da antiga Jerusalém, que por dezoito meses [2 Reis 25:1-3] manteve os inimigos à distância, e cedeu no fim à fome e não à força. O local foi então entregue ao fogo e à espada. Nabucodonosor "matou os seus jovens à espada, na casa do seu santuário, e não teve piedade nem dos jovens, nem das donzelas, nem dos velhos, nem dos decrépitos; a todos entregou na sua mão. E todos os vasos da casa de Deus, grandes e pequenos, os tesouros da casa do SENHOR, e os tesouros do rei e dos seus príncipes, tudo levou para Babilônia. E queimaram a casa de Deus, e derrubaram os muros de Jerusalém, e todos os seus palácios queimaram a fogo, destruindo também todos os seus preciosos vasos. E os que escaparam da espada levou para Babilônia; e fizeram-se servos dele e de seus filhos, até ao tempo do reino da Pérsia. Para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram." [2 Crônicas 36:17-21]

Como Deus tinha tratado com os pais deles por quarenta anos no deserto, assim por quarenta anos este último julgamento foi retardado "porque se compadeceu do seu povo e da sua habitação." [2 Crônicas 36:15] Por quarenta anos a voz do profeta não ficou em silêncio em Jerusalém. "Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e mofaram dos seus profetas; até que o furor do SENHOR tanto subiu contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve." [8]

Esta é a descrição do cronista sagrado da primeira destruição de Jerusalém, rivalizada em tempos posteriores pelos horrores do evento sob o efeito do qual ela ainda está prostrada, e destinado a ser superado em dias ainda por vir, quando as predições da suprema catástrofe de Judá serão cumpridas. [9]

Notas de Rodapé do Capítulo 2

[1] Acredito que minha crença no caráter divino do livro de Daniel parecerá bem clara nestas páginas. A distinção que desejo marcar aqui é entre profecias que os homens foram inspirados para proferir e as profecias como as de Daniel e João, que foram meramente os recipiendários da revelação. Com esses, a inspiração começou no registro que eles receberam.

[2] Citar Daniel 1:12 em oposição a isso envolve um óbvio anacronismo. A palavra "pulse", além disso, no hebraico aponta geralmente para comida vegetal, e incluiria um prato tão apetitoso quanto aquele pelo qual Esaú vendeu seu direito de primogenitura (compare Gênesis 25:34). Comer carne da mesa dos gentios teria envolvido uma violação da lei; portanto, Daniel e seus companheiros tornaram-se vegetarianos.

[3] "Porque Judá foi poderoso entre seus irmãos, e dele veio o soberano; porém a primogenitura foi de José." [1 Crônicas 5:2]

[4] A divisão do reino ocorreu em 975 AC, o cativeiro na Assíria ocorreu em 721 AC.

[5] 625 AC.

[6] Berosus assevera que essa expedição ocorreu durante a vida de Nabopolassar (Josefo, Apiom, 1. 19), e a cronologia prova isso. Veja no Apêndice 1 as datas desses eventos e a cronologia do período.

[7] 2 Reis 24:1-2. De acordo com Josefo (Ant., 10. 6 Cap. 3) Nabucodonosor na sua segunda invasão encontrou Jeoiaquim ainda no trono e foi ele quem o sentenciou à morte e fez Joaquim rei. Ele diz que o rei de Babilônia logo depois tornou-se desconfiado da fidelidade de Joaquim, e novamente retornou para destroná-lo e colocar Zedequias no trono. Essas afirmações, embora não absolutamente inconsistentes com 2 Reis 24, são tornadas improváveis por comparação. Elas são adotadas pelo cônego Rawlinson, em Five Great Monarchies (vol 3, pg 491), mas o Dr. Pusey adere à narrativa das Escrituras (Daniel, pg 403).

[8] 2 Crônicas 36:16. Sem dúvida, esse período são os quarenta anos do pecado de Judá, especificados em Ezequiel 4:6; Jeremias profetizou a partir do décimo terceiro ano de Josias (627 AC) até a queda de Jerusalém no décimo primeiro ano de Zedequias (587 AC). Veja Jeremias 1:3 e 25:3. Os 390 anos do pecado de Israel, de acordo com Ezequiel 4:5, parecem ter sido considerados a partir da data da promessa de bênçãos às dez tribos, feitas pelo profeta Aías a Jeroboão, presumivelmente no segundo ano antes da divisão, isto é, em 977 AC (1 Reis 11:29-39).

[9] Os horrores do cerco e da captura de Jerusalém por Tito superam tudo que a história registra de eventos similares. Josefo, que foi ele mesmo uma testemunha deles, narra-os em todos seus horríveis detalhes. Sua estimativa do número de judeus que pereceram em Jerusalém é de 1.100.000. "O sangue corre gelado e o coração adoece diante desses horrores sem paralelos; e tomamos refúgio em um tipo de esperança desesperada que eles têm sido exagerados pelo historiador." "Parece até que Jerusalém é um lugar sob uma maldição peculiar; ela provavelmente testemunhou uma porção muito maior de miséria humana do que qualquer outro lugar no mundo". - MILMAN, Hist. Jews.


 

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